O livro "A Depressão Quase me Matou - Um Caso Real", é um relato de um ex-doente, vítima de depressão. Um testemunho de Carlos Palma, rico em conhecimentos que poderão ser úteis não só para aqueles que sofrem desta disfunção psíquica, mas principalmente para todos aqueles que de mais perto com elas convivem.
É uma obra que não nos fala apenas da doença em si, mas antes da forma como lidar com ela e como encarar as pessoas que dela sofre.
É uma obra que não nos fala apenas da doença em si, mas antes da forma como lidar com ela e como encarar as pessoas que dela sofre.
«Nove horas. Acordo de mais uma noite de pesadelos. A minha mulher já saiu para o emprego. Hora e meia nos transportes públicos. É de assustar só de pensar. O meu filho já está na escola. 15 anos. É um filho impecável. Meigo. Desorientado e assustado com o que vê no meu comportamento. Fala em sussurro com a mãe. A minha mulher diz-me: -"Carlos. O nosso filho anda assustado e desorientado com o que vê. Não se consegue concentrar nas aulas. Anda muito calado. Já lhe expliquei que estás psicologicamente debilitado mas com os medicamentos vais melhorar em breve e voltarás a ser alegre e brincalhão. Vou chamá-lo. Faz-lhe uma carícia e sorri para ele. Consegues?". Com a cabeça digo que sim. Entra no meu quarto. Tenho o olhar fixo no tecto do quarto. Sorrio para ele. Ajoelha-se ao pé da cama e beija-me. Descontrolo-me. Abraço-o com força e beijo-lhe os cabelos lindos a cheirar a lavado. Irrompo num pranto convulsivo. As minhas lágrimas molham-lhe a face e os cabelos. Um nó na garganta."Não chores pai... pai não chores...por favor pai...". Estou a traumatizar o meu filho. Vou buscar forças ao fundo de mim. Enxugo as lágrimas, encho o peito de ar e afago-lhe a face molhada. Uma voz cava sai dos meus lábios. "Mário. Não te quero ver nesse estado de nervos. O que o pai tem hà-de passar com os medicamentos a ajuda do médico e a força que tu e a tua mãe me dão. Não te quero ver assim preocupado. Vai pra casa dos teus amigos jogar no computador. Distrai-te." Forço um sorriso. "Ontem o nosso clube ontem jogou bem... pira-te e não penses mais nisto". Beijou-me a face. Levantou-se e saiu. A cara pálida do medo. "Tchau e porta-te bem se tiveres tempo". Isto foi ontem à noite. Noto um movimento ao fundo da cama. A gata está a enroscar-se. Olha para mim. Parece, pelo olhar triste que compreende tudo o que se passa. Vem até junto da minha cara. Cheira-me…»

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