terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Um mundo à parte

O segredo do sucesso

"O primeiro indício do autismo remonta aos 17 meses do João, altura em que uma estranha fixação fez estremecer o sexto sentido de mãe.
«Ele era muito risonho, sociável, mas nessa altura começou a ter crises de irritabilidade, chorava muito, rejeitava o contacto físico e visual. Notei que quando tinha a máquina de lavar a roupa a trabalhar ele ficava a olhar para ela como se entrasse num mundo paralelo ao nosso.»
Foi o alerta do pediatra que pouco depois confirmou os piores dos receios. «O mundo desabou quando soubemos que o João tinha autismo. não estávamos preparados porque afinal não foi algo com que ele tivesse nascido. Ele teve um crescimento normal até então. Sentou-se na altura certa, ainda chegou a dizer as primeiras palavras, como 'mamã' e 'papá', mas depois deixou de falar.» Com uma voz incerta conta: «Foi uma desilusão. Desconhecia por completo a doença. Achava que ser autista era sinónimo de estar a um canto de uma sala, sozinho, a baloiçar o corpo. O primeiro pensamento foi: 'é preciso uma segunda opinião. E se foi um engano?'»
A consulta na Universidade de Autismo do Hospital Pediátrico de Coimbra ditou o mesmo resultado mas apresentou-lhe uma realidade bem diferente daquela que é retratada pelas produções de Hollywood.
«Disseram-nos que não nos podiam dar perspectivas de como iria ser mas que era necessário fazer uma intervenção precoce nas áreas mais afectadas, como a comunicação e a interacção social. O João ingressou na creche do Centro de Educação e Desenvolvimento de D. Maria Pia, em Lisboa, aos 2 anos, na qual existia uma equipa multidisciplinar capaz de responder às suas necessidades. Tem ainda o apoio extra de uma psicopedagoga da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo (APPDA) de Lisboa duas vezes por semana», intervenções que lhe restituiram a capacidade de interagir com o mundo.
«Os pais normalmente desconhecem esta doença por completo. Apercebem-se de que algo não está bem porque um familiar os alertou e depois vêm até cá. A primeira preocupação ter a ver com o facto da criança não falar, o que é o mais frequente», confessa Ana Gouveia, uma das psicólogas responsáveis pela consulta médica semanal de diagnóstico e aconselhamento aberta à comunidade da APPADM.
«No 1º ciclo os pais estão mais ou menos descansados porque com 4/5 anos os meninos conseguem estar bem. As escolas são mais pequenas e os coleguinhas entendem melhor a diferença. Com a pré-adolescência e a adolescência os meninos tornam-se menos tolerantes. Para além disso, a transição para o 2º e 3º ciclos é muito difícil, uma vez que têm de ter um plano curricular diferente», explica a psicóloga, que acrescenta: «Alguns pais quando pressentem a transição dos seus filhos para o 2º ciclo sondam-nos para ver se é possível passar os filhos para o ensino especial. Mas agora é obrigatório estarem no ensino regular até aos 18 anos. O ensino especial só acontece em casos muito específicos».

Sem comentários:

Enviar um comentário