Reportagem "Domingo" (Correio da manhã)
Texto de Joana Nogueira
O silêncio dos inocentes
Em Portugal, uma em cada mil crianças em idade escolar tem autismo. Novas terapias dão esperança aos pais.
"De olhos arregalados, o Marco dá-nos as boas-vindas. As palavras que ainda não adquiriram vontade própria são substituídas pela expressividade dos sentimentos que aos poucos vão encontrando formas de se exprimirem.
Sentado no balouço azul, estrategicamente colocado no centro de uma sala ampla, de paredes claras, Marco deixa-se levar pelo movimento de vaivém que pontualmente o aproxima do reflexo do espelho colocado à sua frente.
A imagem de um menino curioso que hoje toma forma pouco tem a ver com aquela que levou os pais a suspeitar que algo não estaria bem.
«Quando o Marco tinha 18 meses deixou de dizer as palavras que já tinha aprendido, passou a andar na ponta dos pés, não respondia quando o chamávamos, não olhava, isolava-se. Procurámos uma clínica de pediatria do desenvolvimento, na qual ele foi analisado e diagnosticado como autista.»- Conta a mãe do Marco, de 5 anos.
A 'sentença' imposta pelo diagnóstico trouxe um mar de dúvidas e inquietações, facto que foi amenizado pelo conhecimento de uma nova terapia que aposta no desenvolvimento das capacidades da criança.
O método 3I, criado pela Associação de Autismo Esperança no Rumo da Escola (AEVE), em França, é por definição, Intensivo, Interactivo e Individual, dado que pressupõe que a criança esteja cerca de oito horas diárias em interacção com um adulto, de modo a ser estimulada, quer física quer cognitivamente, através de jogos e brincadeiras. Para que tal seja possível a ajuda de voluntários é essencial.
O Marco está a beneficiar deste método há um ano e meia. Hoje tem um olhar mais presente, reage, interage. No início não aceitava os voluntários, gritava e não deixava que ninguém lhe tocasse. Hoje é ele que estabelece o primeiro contacto com eles, agarra-os pela mão, dá-lhes um beijinho e pede para brincar."
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